
Leandro Soares, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região
A discussão sobre o fim da escala 6×1 segue com força no Congresso Nacional nesta semana. O tema afeta diretamente a vida de milhões de trabalhadores que passam praticamente a semana inteira entre o trabalho, o transporte e as responsabilidades de casa e, por isso, é mais uma vez assunto para essa nossa conversa semanal por aqui.
O debate ganhou novo fôlego em Brasília nos últimos dias e também vem expondo um jogo político entre o Congresso e o Governo Federal. Nos últimos dias, chegou a circular a informação de que o Palácio do Planalto teria desistido de enviar um projeto próprio sobre o tema. A versão foi negada por ministros do primeiro escalão, que afirmaram que a proposta segue em elaboração e deve ser encaminhada ao Congresso nos próximos dias. A ideia defendida dentro do governo é estabelecer uma nova lógica para a jornada de trabalho no país: fim da escala 6×1, adoção de dois dias de descanso por semana e uma jornada máxima de 40 horas semanais, tudo isso sem redução de salário para os trabalhadores.
Ao mesmo tempo, a Câmara dos Deputados discute outra estratégia. O presidente da Casa, Hugo Motta, tem defendido que avance uma Proposta de Emenda à Constituição que já está em tramitação e que reúne iniciativas apresentadas pelos dois parlamentares que apresentaram propostas semelhantes, a deputada Érika Hilton, do PSol SP, e o deputado Reginaldo Lopes, do PT MG, que tratam da revisão da jornada e do fim da escala atual, também sem redução de salários.
A expectativa é que o tema passe primeiro pela Comissão de Constituição e Justiça e depois siga para votação em plenário. A diferença entre os caminhos é importante. Um projeto de lei do governo pode ser sancionado diretamente pelo Presidente da República, enquanto uma emenda constitucional, depois de aprovada pelo Congresso, é promulgada diretamente pelo Legislativo. No fundo, o impasse revela uma disputa sobre qual será o caminho político para uma mudança que pode impactar a vida de milhões de trabalhadores brasileiros.
Mas, para nós trabalhadores, o que importa mesmo é a vida das milhões de pessoas que serão impactadas. Para entender o peso disso no dia a dia, imagine a rotina de mulheres como a Márcia, de 45 anos, trabalhadora do comércio e mãe de dois filhos. O despertador toca antes das seis da manhã. Ainda com sono, ela já inicia a primeira jornada do dia: preparar o café, organizar a casa, separar o que os filhos vão levar para a escola.
Depois vem o transporte cheio e o dia inteiro de trabalho atendendo clientes, muitas vezes em pé, sob pressão por metas e resultados. Quando a loja fecha e ela finalmente volta para casa, a rotina continua. Ainda tem janta para preparar, roupa para organizar, contas para resolver e atenção para dar à família.
Essa é a realidade de muitas mulheres brasileiras, entre o trabalho remunerado, trabalho doméstico e cuidado com os filhos. Uma verdadeira segunda e até terceira jornada. O único dia de folga da semana raramente é descanso. É o dia de limpar a casa, fazer compras e resolver tudo o que ficou acumulado.
Agora pense em outro caso, do Rafael, 27 anos, metalúrgico em uma indústria da região. O trabalho na fábrica exige esforço físico, concentração e responsabilidade com máquinas pesadas. Ao final de uma semana puxada, o corpo pede e precisa de descanso.
Dentro das fábricas e dos sindicatos, nós, trabalhadores metalúrgicos como Rafael defendemos reduzir a jornada de trabalho sem reduzir salários. E permitir que quem produz a riqueza do país também tenha tempo para viver, estudar, conviver com a família e cuidar da própria saúde.
É por isto que esse debate vai muito além de uma questão legislativa, é uma discussão profunda sobre o modelo de desenvolvimento que queremos para o país. A escala 6×1, do jeito que funciona hoje em muitos setores, limita o tempo de descanso, dificulta o acesso à educação e reduz o convívio familiar. Para milhões de trabalhadores, o tempo livre praticamente desaparece.
Reduzir a jornada de trabalho e garantir mais tempo de descanso não significa reduzir produtividade. Ao contrário. Experiências no mundo inteiro mostram que trabalhadores com mais qualidade de vida produzem melhor, adoecem menos e vivem com mais dignidade.
Por isso, esse debate não pode ficar restrito aos gabinetes de Brasília. Ele precisa chegar aos locais de trabalho, aos sindicatos, às universidades e às ruas. A história mostra que nenhum direito trabalhista caiu do céu. Cada conquista veio da organização coletiva e da pressão dos trabalhadores, trabalhadoras e da sociedade.
Se quisermos um país onde a Márcia, já citada aqui, tenha tempo para descansar e cuidar da família, e onde o Rafael, que também falei neste texto, possa trabalhar na indústria sem abrir mão da própria vida, será fundamental manter esse tema vivo no debate público. Garantir mais tempo de vida para quem trabalha é uma das lutas mais importantes do nosso tempo.
Se for preciso, sairemos às ruas de novo e de novo, com cada vez mais força e mais organizados, para conquistar de vez essa vitória, que já devia fazer parte do cotidiano de quem trabalha e move o país. Estamos juntos nesta luta!
Artigo produzido originalmente para o Portal Porque















