
Verena, guia de turismo, chegou antes mesmo do início da programação para participar dos debates sobre a história e o futuro de Sorocaba.
Antes mesmo de a programação começar, a expectativa já estava presente. A guia de turismo Verena foi a primeira a chegar ao Núcleo de Educação, Tecnologia e Cultura (ETC) da UFSCar Sorocaba, no dia 15 de agosto. Sentada e aguardando o início das atividades, ela representava um dos objetivos centrais da 1ª Bienal Repensar Sorocaba: reunir pessoas dispostas a olhar para a cidade com novas perspectivas.
“É sempre importante não só a gente resgatar a história, também mantê-la viva, as memórias, mas também uma forma de repensar como a gente consegue fazer parte da cidade, construir um futuro diferente também, um futuro melhor, que inclua não só as diferenças, mas também novas ideias, novas visões”, afirmou Verena, que é guia de turismo em Sorocaba e também professora de inglês.
Nascida em Suzano, Verena vive em Sorocaba há oito anos. Foi a cidade onde sua filha nasceu e onde criou raízes. Para ela, conhecer novas histórias e perspectivas também é uma forma de pensar em como apresentar Sorocaba para quem vive e para quem visita o município.
“É uma cidade que eu tenho um carinho e acredito, sim, que tem um potencial muito grande para transformar, para ser muito maior até do que ela é hoje”, destacou.
A Bienal, que teve apoio do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba e Região, foi realizada nos dias 15 e 16 de agosto, justamente durante o aniversário de 372 anos de Sorocaba. Ao longo dos dois dias, cerca de 350 pessoas circularam pelo Núcleo ETC da UFSCar para acompanhar mesas de debate, reflexões e discussões sobre memória, história, cultura e direito à cidade.
Com o tema “Entre Ruínas e Fagulhas: História e Direito à Cidade”, a primeira edição do evento buscou questionar as narrativas tradicionais sobre a formação de Sorocaba e ampliar o espaço para histórias e personagens que, ao longo do tempo, foram deixados à margem da narrativa oficial.
Quem conta a história da cidade?
Para a jornalista, escritora e uma das organizadoras da Bienal, Fernanda Ikedo, pensar a cidade também significa questionar a forma como sua história foi construída e contada. A provocação parte do próprio aniversário de Sorocaba. São 372 anos de história oficial, mas a presença humana nesse território é muito anterior à fundação do município.
“Será que a versão que contam para a gente da história da nossa cidade é essa mesmo? A gente está falando de 372 anos, mas apenas oficialmente, porque antes desses 372 anos já havia pessoas aqui nesse território”, explicou Fernanda.
Ela destaca que o território de Sorocaba é indígena e que a Bienal busca trazer para o debate diferentes vozes e personagens que foram invisibilizados por uma narrativa considerada única ou oficial.
“O que a gente não quer é invisibilizar tantas histórias que são invisibilizadas com uma narrativa, às vezes, dita oficial, dita história única, que é a dos tropeiros como os grandes heróis. Isso é uma história muito romantizada”, afirmou.
Para Fernanda, a presença de coletivos culturais, movimentos populares e pesquisadores é um dos pontos fortes da Bienal. A aproximação entre esses diferentes grupos pode abrir espaço para novas iniciativas e outras formas de pensar a cidade.

Da esquerda para a direita, os organizadores da 1ª Bienal Repensar Sorocaba: Carlos Rufini, Bruno Lotelli, Fernanda Ikedo, Pedro Carvalho e Cícero Santos.
Repensar Sorocaba é questionar o mundo
Para Cícero Santos, também organizador da Bienal, questionar a história de Sorocaba não é uma discussão isolada. Para ele, repensar a cidade significa também refletir sobre a sociedade e sobre as desigualdades presentes no mundo.
“A gente tem que repensar para questionar quais são os locais comuns da historiografia de Sorocaba. E quando a gente pensa, por exemplo, o que significa a cidade de Sorocaba, a gente também está questionando o mundo que nós vivemos”, afirmou.
Nascido e criado em Sorocaba, Cícero é filho de uma família migrante do Nordeste e se identifica como parte da primeira geração sorocabana de sua família. A trajetória também ajuda a explicar a proposta da Bienal: olhar para a cidade a partir de diferentes lugares, experiências e histórias.
O direito de ocupar a cidade
O direito à cidade esteve no centro das discussões dos dois dias de programação. Para Pedro Carvalho, um dos organizadores, repensar Sorocaba passa necessariamente pelo direito de seus moradores à história, à memória e à própria cidade.
“Repensar a cidade tem a ver com pensar os nossos direitos, o quanto a gente ocupa a cidade que a gente vive”, afirmou.
Segundo Pedro, discutir a cidade também é uma maneira de reencontrar os espaços urbanos e fortalecer a participação dos cidadãos.
“Repensar a cidade num evento como esse é um momento da gente se reencontrar com a cidade, reocupá-la e nos tornarmos cidadãos plenos nesse sentido”, disse.
A proposta, segundo ele, é que a Bienal seja um espaço aberto a diferentes públicos. Durante os dois dias, adolescentes, professores, pesquisadores, estudantes, trabalhadores, integrantes de coletivos e pessoas interessadas em conhecer e discutir Sorocaba compartilharam o mesmo espaço.
“A Bienal é para um público amplo. Todo mundo que quiser repensar a cidade, que tiver um interesse público em questionar a cidade que a gente vive, é bem-vindo aqui para debater, para discutir, para que a gente possa construir uma outra Sorocaba, sonhar juntos uma outra Sorocaba”, destacou.
Pedro também chama atenção para uma questão central levantada durante a organização do evento: quem teria interesse em não questionar a cidade?
“Questionar a cidade significa questionar o poder público, significa reivindicar direitos. Então, não se preocupa com repensar a cidade quem tem a perder com isso”, afirmou.
Novas narrativas para uma cidade mais acolhedora
Para Bruno Lotelli, também organizador da Bienal, pensar a cidade significa imaginar e construir um território onde as pessoas possam viver melhor.
“A importância de repensar a cidade está na construção de um território onde a gente acredite e sinta-se à vontade para viver mais e melhor”, afirmou.
Bruno observa que, para muitas pessoas, a cidade ainda pode ser um espaço hostil e pouco acolhedor. Por isso, segundo ele, a transformação também passa pela construção de novas narrativas sobre quem vive em Sorocaba.
Entre os exemplos citados por Bruno estão crianças, idosos, pessoas com deficiência, mulheres e pessoas de diferentes identidades e expressões de gênero. Para ele, pensar essas diferentes experiências é fundamental para construir uma cidade capaz de acolher e potencializar a vida de seus moradores.
“As narrativas que a gente cria enquanto cidadãos e cidadãs vão formando o território onde a gente efetivamente mora”, afirmou.
Sorocabano, Bruno cresceu na Zona Oeste da cidade e afirma que sua própria experiência influencia a maneira como observa o município e o mundo.
“Para ser universal, a gente começa a sair do local. É do meu quintal que eu observo o mundo”, explicou.
Uma Bienal que pretende continuar
Embora os dois dias de atividades no Núcleo ETC tenham marcado o ponto alto da programação, a 1ª Bienal Repensar Sorocaba ainda não terminou. A programação segue até setembro, com outras atividades abertas ao público.
A continuidade do projeto também está nos planos dos organizadores. Bruno conta que a ideia é que a Bienal tenha novas edições, mantendo a articulação entre pessoas e iniciativas que já desenvolvem trabalhos relacionados à memória, à cultura, ao cinema e à história da cidade.
“Dá para dizer que o que a gente está fazendo aqui já acontecia antes. A grande vantagem é adensar e chamar mais gente para esse tecido”, explicou.
Segundo ele, a força da Bienal está justamente em aproximar pessoas que já atuam na cidade, mas que nem sempre têm a oportunidade de dialogar entre si.
Programação continua
A programação da 1ª Bienal Repensar Sorocaba continua nesta segunda-feira, 17, com o evento “Sem Festa Não Dá”, às 19h, na Casa Lastro, localizada no Largo de São Bento, 71, no Centro.
No dia 30 de agosto, será realizada a “Deriva pelo Centro”, com saída às 9h30 do Largo de São Bento, 62. Já no dia 3 de setembro, às 19h, o Núcleo ETC da UFSCar recebe o Cine-debate – CineFarol Especial Bienal.
Mais informações e atualizações da programação podem ser acompanhadas pelo Instagram @bienalrepensarsorocaba.















